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Agir localmente pensar globalmente

Por Lísia Castro
(texto original)

Quando abordamos um problema social complexo, cujas soluções dependem de profundas transformações no modo como pensamos a agimos na realidade, pode soar utópico imaginar o mundo sem este fenômeno. Imagine um mundo sem pobreza, sem fome, sem exploração. Talvez não nos sintamos capazes de atuar em todas as frentes que julgamos necessárias para enfrentar o problema, ou em integrar tantas dimensões e agir de forma coordenada, ou as vezes simplesmente pensamos que esse esforço já está sendo realizado pelos governos mundiais ou por uma organização importante, de forma planejada, eficaz  e global, e que os resultados virão mais cedo ou mais tarde. Pode ser até que pensemos que o problema é parte indissociável desta realidade, e que por exemplo, é preciso que haja pobreza, para que haja riqueza. É preciso que a desigualdade se perpetue, para que os indivíduos exerçam sua liberdade, progridam pelo mérito e pela competição. Mas todas esses caminhos são estáticos, conduzem à inércia, deixam o indivíduos de mãos atadas.

Cerca de 1,3 bilhão de pessoas de 101 nações analisadas pelas Nações Unidas no ano de 2019 são consideradas “multidimensionalmente pobres”. Em relação a pobreza extrema, caracterizada por aqueles que vivem com menos de US$ 1,90 por dia, a pandemia da COVID-19 poderá acarretar um aumento de 88 milhões a 115 milhões de pessoas vivendo nessas condições. O sentimento mais comum frente a essas estatísticas é de impotência. Não fazemos parte da mesa redonda de esforços coordenados globais, não temos cargos políticos, resta-nos votar, muitas vezes com uma lista disponível de candidatos, que é como um cardápio com diferentes tipos de carnes para um vegetariano faminto: é preciso escolher o menos pior ou abster-se de escolher.

Como então fazer parte de uma mudança efetiva?

Há uma forma: em um sistema em que as soluções locais sejam as soluções globais. Partir do simples, do que cada indivíduo é capaz de compreender como melhor forma de economia, de sociedade, de consumo, de troca, de existência, e ampliar esse sistema gradualmente. Este seria um processo de desalienação, em que todos são peças fundamentais de uma mudança global. Pensar localmente então será agir globalmente.

Prout, a Teoria da Utilização Progressiva, elaborada por P.R. Sarkar em 1959, traz em seus 16 princípios, dos quais 5 são considerados fundamentos, uma visão que nos permite pensar igualmente em como atuar nas localidades, e em como expandir essa atuação à níveis cada vez mais amplos, até um governo global, sem fronteiras, comprometido com o bem estar de todos os seres, através de um modelo de economia descentralizada.

Para compreender essa ideia, podemos utilizar o conceito de sintropia, explicado por Ersnt Gotsch, e que dá nome a agricultura que criou, com fantásticos resultados ao se trabalhar em sintonia com a natureza. Ao contrário da entropia, em que um sistema perde energia, e tende ao caos, ou seja, se torna menos complexo, a sintropia atua como a própria natureza, ganha energia percorrendo etapas de modo que o sistema adquire energia gradualmente, e em níveis suficientes para prosseguir rumo a sistemas mais complexos. É um esforço sustentado por diversos processos simples, que tornam possíveis níveis cada vez mais elevados de organização.

O progresso social caminha de forma semelhante, deve ser passo a passo, no ritmo da capacidade local, de acordo com a realidade de forma que possa ser sustentado no tempo e aprimorado pelos agentes internos desse meio, ou seja, a população local deve estar plenamente engajada nesse progresso, é ela que deve incorporá-lo. Isso envolve a utilização progressiva de uma série de recursos da forma racional, ou seja priorizando o bem estar dos seres humanos e do equilíbrio do planeta.

Esses recursos podem ser de ordem física, como matérias primas, acessibilidade do local, potencial agrícola, potencial industrial e de manufaturas considerando os recursos disponíveis, ou de ordem social e cultural local, ou seja, estão interligados nesse sistema níveis mentais, físicos, psíquicos que mostrarão os caminhos para a mudança, num sentido de autossustentabilidade em escala crescente, da organização cooperada e do progresso individual e coletivo.  Essa forma de transformação, enérgica mas coordenada, Prabhat Ranjan Sarkar chama de revolução nuclear.

O que podemos adquirir em nossa localidade? Como podemos fomentar o mercado local?  Com quem nos unir para ampliar o alcance dessas atitudes individuais? Que cooperativas de produção ou de consumo podem ser criadas para trazer renda e produtos de melhor qualidade a população local? O que podemos fazer para melhorar a saúde e bem estar da localidade em que vivemos? O que nos traz felicidade que podemos compartilhar? Que práticas regenerativas de agricultura podem ser aplicadas? Que tipos de escolas podem ser criadas de forma comunitária, que favoreçam o desenvolvimento pleno de crianças e adultos?

P.R. Sarkar considera tudo aquilo que constitui o ser humano e o desenvolvimento da vida em todas as suas manifestações, ao elaborar sua teoria socioeconômica. Neste sentido Prout envolverá conceitos de organização social, administração econômica, governança, considerando dimensões da ética, educação e espiritualidade.

Podemos abordar a espiritualidade dentro do contexto da filosofia Neo-humanista, teoria que está na base do pensamento de Prout. O Neo-humanismo nos fornece uma visão ecológica profunda, capaz de transformar a forma como refletimos sobre a realidade e a transformamos. Ela nos ensina a compreender a interdependência entre todos os seres, a unidade fundamental que se manifesta através da diversidade, o valor não apenas utilitário mas próprio de cada ser, a capacidade, responsabilidade e potencial que os seres humanos têm de contribuir com  o  desenvolvimento da vida que o cerca, suas limitações e fronteiras de pensamento que o separam de outras nações, outros povos, outros grupos, e principalmente, a manifestar o amor por tudo que é vivo e assegura a vida. E está é a base de PROUT, permitir a todos os seres o pleno desenvolvimento, a felicidade, a realização, e que esse compromisso não seja apenas individual, mas de todos com a coletividade, para que todos a desfrutem.

Segundo Sohail Inayatullah, pesquisador de Estudos do Futuro, professor da Universidade Tamkang em Taipei, Taiwan, e estudioso de Prout, devemos ter em perspectiva quatro dimensões ao analisar um problema. Sua teoria de análise causal em camadas classifica esses níveis em: litania, causas sociais, discurso ou visões de mundo e mitos ou metáforas. “A litania concentra-se em tendências e problemas quantitativos que muitas vezes são exagerados e usados ​​para fins políticos. Ao nível das causas sociais, a interpretação é dada aos dados quantitativos. O terceiro nível diz respeito à estrutura e ao discurso e visão de mundo que a apoia e legitima. No quarto nível, a análise busca as histórias profundas, os arquétipos coletivos, a dimensão subconsciente da questão sob investigação.” (Ivana Milojević)

Ele nos mostra que há uma interdependência nessas quatro perspectivas, e que o quarto nível é capaz de determinar a transformação das outras dimensões de forma mais significativa, ou seja, se a narrativa, o mito, a metáfora, que podemos chamar de cosmovisão que temos sobre o mundo, se modificar, os outros níveis sofrem uma mudança de paradigma e se aprimoram não apenas quantitativamente, mas alteram o foco de sua análise. O modo como enxergamos o mundo, de forma mais profunda, emocional, muitas vezes, inconsciente, poderá redefinir o modo como abordamos um problema.

Podemos considerar o Neo-humanismo como esta visão de mundo, e é o que observamos como pano de fundo em pensadores universalistas, sejam eles ateus ou espiritualistas.

Vamos pensar em um exemplo.

Os indicadores sociais são característicos da dimensão da litania, e quais são utilizados hoje em dia para se pensar em políticas públicas para populações pobres? Índices de pobreza extrema e relativa, multidimensional, de violência, Produto Interno Bruto, entre outros.

Um grande educador brasileiro, Tião Rocha, fundou o Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento – CPCD, uma referência de educação comunitária e histórias de êxito na construção de alternativas de educação e formas de atuação social. Sua premissa básica, expressa da forma mais simples, é a de que é preciso uma comunidade para educar uma criança, ou um adulto, ou mesmo uma cidade, ou seja, cada potencial local de aprendizado deve ser utilizado.

Mas para pensar ações e, de forma ampliada, políticas sociais desse tipo, é preciso investigar potenciais, não debilidades, é preciso ver o lado cheio do copo, como ele diz, e isso aponta para indicadores que meçam potências, não ausências.

Outro indicador que vem ganhando destaque é o FIB – Felicidade Interna Bruta, que avalia aspectos sociais, ambientais e econômicos das comunidades e considera uma população feliz, ou não, a partir de nove pilares. A ideia surgiu em 1972 no Butão.

 “Gente infeliz não projeta nada de novo. E, embora a felicidade seja um sentimento individual, pode ser produzida coletivamente. Mas sem indicadores é difícil perceber o quanto é complexa a realidade”, destacou. “PIB mede tudo, menos aquilo que faz a vida valer a pena.” – disse o representante do Butão, Karma Dasho Ura, em debate na Rio+20

Medindo felicidade, você conhece o que trás felicidade, e irá atuar diretamente sobre esses fatores.

Não é possível utilizar indicadores de deficiências para enfrentar problemas como pobreza, por que o potencial de abordagem desses mesmos problemas está justamente ali, onde se vê apenas pobreza. As comunidades mais pobres tem sido um exemplo de resiliência social, tecnologia de baixo custo, cooperação, organização civil, criatividade, e tudo sem o menor apoio dos governos. O aprendizado exige uma olhar equânime, uma troca verdadeira, e uma profunda honestidade sobre aquilo que não sabemos. Não se podem resolver problemas de comunidades que não conhecemos, não podemos sustentar soluções e tecnologias em locais que não permaneceremos.

É preciso começar com o conhecemos, unir aqueles que compartilham do mesmo desejo, de melhorar significativamente as condições da vida neste planeta, e a partir dai, viver a mudança que almejamos, diariamente.

Este aspecto fundamental de desenvolvimento descentralizado está na base da teoria socioeconômica de Prout e é determinante na forma como torna a prática da transformação social acessível a todos.

São princípios ao mesmo tempo universais e adaptáveis por usa própria natureza: autossuficiência local como meta, modo de organização de produção e consumo através de cooperativas, ou seja, da união de interesses comuns, e a nível individual, que é a forma como estamos neste mundo, simplesmente esteja conectado a tudo que o cerca, com pleno envolvimento com a vida, com tudo que constitui a base de nossa sobrevivência e existência plena nesta terra. E neste sentido a espiritualidade, ou o desenvolvimento pleno de nossa potencialidade humana, não parte de nenhuma fuga da realidade, mas de um mergulho profundo nesta humanidade, e além dela, em tudo que constitui a vida.  Ninguém é inapto para realizar esse mergulho, ao contrário, cada um é o mais apto para transformar a realidade de sua localidade. 

Maheshvara PachecoAgir localmente pensar globalmente
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A “Grande Reconfiguração” do Capitalismo, pelos capitalistas

Francisco Dinis

Em Davos, na Suíça, o início de cada ano reúne a elite económica, no Fórum Económico Mundial (FEM) (World Economic Forum, em inglês), cuja a missão é “melhorar o estado do mundo, envolvendo líderes empresariais, políticos, académicos e outros líderes da sociedade para moldar as agendas globais, regionais e industriais”.

            Em Abril de 2020, o FEM publicou um artigo (1) onde defende que a pandemia COVID-19 está ligada à destruição da natureza. O número de doenças emergentes está a aumentar,  relacionando o fenómeno com a desflorestação e a perda de espécies. No artigo, existem vários exemplos de degradação dos sistemas ecológicos causada pelo homem. Também é dito que metade do PIB global é moderadamente ou amplamente dependente da natureza. O artigo conclui que a recuperação da pandemia tem de estar ligada à recuperação da natureza.

            Em Junho passado Klaus Schwab (fundador e responsável do FEM) apresentou o tema para o Fórum deste ano: “The Great Reset”, que decorre de 25 a 29 de Janeiro, com vários temas: “How to save the planet”; “Fair Economies”; “Tech for Good”; “Society and Future Work”; “Better Business”; “Healthy Futures and Beyond Geopolitics” (2)

            Sobre a questão ambiental o Fórum propõe um plano para uma recuperação verde, incluindo um reforço da economia circular. Dentre dos métodos mencionados, destacam-se a construção ecológica, transporte sustentável, agricultura biológica, energias renováveis e veículos elétricos. Estas propostas estão incluídas no denominado capitalismo verde, procurando-se uma redução do impacto ambiental nos processos de produção, uso da reciclagem, eficiência energética e tecnológica.

            Desde há muito tempo sabemos que, se toda a população mundial consumisse a mesma quantidade de recursos que os países mais ricos consomem, tínhamos que ter mais planetas disponíveis do que aquele onde vivemos. Cada vez mais pessoas vão ganhando consciência do que significa isto no mundo real, nos nossos estilos de vida, na destruição do mundo natural e da ameaça real à permanência da civilização humana na Terra. Assim, existe uma contradição na terminologia “capitalismo verde”, pois o objectivo principal do capitalismo é a acumulação de capital, para tal é necessário um crescimento económico constante, e este crescimento será sempre ambientalmente destrutivo, por mais verde que seja, pois a longo prazo a natureza tem limites. Poderemos até ser mais eficientes a usar os recursos naturais, mas continuaremos a destruir. Levaremos mais tempo, mas chegaremos ao seu esgotamento.

             Outro aspecto do Fórum deste ano é a defesa de uma cooperação entre os”stakeholders” da economia, para gerirem as consequências desta pandemia, através de um redesenho do sistema socio-económico capitalista. Isso mesmo, os multimilionários defendem que a estrutura actual deve ser modificada, porque para além da destruição ambiental, a desigualdade económica sistémica ameaça colapsar todo o edifício. Nesse sentido, o FEM está a repescar o conceito de “stakeholder capitalism” e tentar aplicar-lo no momento pós pandemia, ao invés do actual modelo de “shareholder capitalism” (proprietários do capital).

            Qual a diferença entre os dois conceitos? O actual modelo baseado no “Shareholder capitalism” dá primazia a um objectivo único – o de canalizar o máximo possível de dinheiro para os proprietários da empresa (os “shareholders”). Os proponentes do ”stakeholder capitalism” defendem que para além dos proprietários, a empresa deve ter em consideração os trabalhadores, fornecedores, clientes, pois de outra forma as corporações aumentarão sempre a desigualdade económica dentro da sociedade, nessa ânsia de maximização da acumulação destinada aos “shareholders”. Ver debate em (4 e 5).

            Existe um conjunto de reações a estas propostas. Alguns podem dizer que são apenas cosmética, que daqui a alguns anos volta tudo à mesma, com algum marketing a evidenciar algo de positivo feito no entretanto. Os observadores mais à direita dizem que é uma forma de introduzir ideias socialistas e de esquerda, perigosas para o capitalismo. Os fãs (ou fanáticos) da liberdade individual acima de tudo, sentem-se incomodados também, pois uma série de restrições à sua vontade serão impostas por instituições que, afirmam, querem controlar a nossa sociedade global (claro não falando de teorias da conspiração sobre o “Great Reset”, que vão povoando o espaço cibernético, quais histórias mitológicas modernas, onde a racionalidade e a prova factual está ausente).

            Do ponto de vista de Prout o sistema capitalista não conseguirá garantir uma permanente distribuição de riqueza na sociedade, nem uma proteção ambiental adequada, pois na ausência de democracia económica nunca poderá haver um escrutínio e transparência das decisões que impactam todos os intervenientes no sistema, nem haverá um poder  económico descentralizado efectivo (pois muitos continuarão não ter voz), para atingir soluções que atendam às necessidades de todos os seres humanos e não só. Pois uma coisa é termos uma democracia formal, no papel, para sentirmos bem, outra é uma democracia real, vivida e sentida.

            O Great Reset do FEM é uma tentativa de reformar o sistema capitalista. Por um lado o capitalismo verde promete melhorar o ambiente, num processo de transição para um mundo mais ecológico, e o “stakeholder capitalism”, diminuir a desigualdade económica. No fundo temos um grupo de pessoas que actualmente detêm o poder económico, com capacidade de tomar grandes decisões económicas e/ou influenciar políticas públicas, decidir ter um pouco menos de rendimento/riqueza, para evitar um colapso total.

            Antes da implosão do sistema comunista houve também uma tentativa de reforma, a chamada Perestroika do então presidente da USRR, Gorbatchev. Passado alguns anos todo o sistema soviético ruiu literalmente, com a queda do muro de Berlin, “numa bela noite”. O que vai acontecer ao sistema capitalista actual? A ver veremos…

(1) https://www.weforum.org/agenda/2020/04/covid-19-nature-deforestation-recovery/

(2) https://www.weforum.org/events/the-davos-agenda-2021

(3) https://www.rs21.org.uk/2019/03/16/revolutionary-reflections-green-capitalism-a-critical-review-of-the-literature-part-iii/

(4) https://qz.com/1909715/the-difference-between-stakeholder-and-shareholder-capitalism/

(45 https://www.weforum.org/agenda/2020/01/shift-to-stakeholder-capitalism-is-up-to-us/

Maheshvara PachecoA “Grande Reconfiguração” do Capitalismo, pelos capitalistas
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Democracia Económica – Economia para todos….

É espantoso como nos mobilizamos facilmente enquanto sociedade quando sentimos que o sistema político democrático está em perigo. mas muitas vezes assistimos passivos à ditadura ou nepotismo no local de trabalho.

Qual a relação entre sistema político e a economia? O que é a democracia política? E a Económica?

Por de trás de qualquer sociedade existe uma ideologia (conjunto de ideias) dominante que racionaliza as questões inerentes à vida colectiva, servindo de base para os seus valores, ao longo dos séculos. Das ideologias e dos valores surgem as leis que regulam as diferentes interacções entre indivíduos e instituições. Aqui entramos na esfera da política, que interpreta a ideologia e os valores dominantes, para estruturar a sociedade e alcançar objetivos.

Apesar da experiência histórica de Atenas, onde se desenvolveu, ainda que limitado a alguns, um sistema democrático, a maioria destes sistemas políticos foram desenvolvidos nos séculos XIX e XX. Democracia significa que o poder de decisão está nas mãos das pessoas, ou melhor nos cidadãos. Muitos sistemas democráticos surgiram em resposta ao nepotismo político da aristocracia e das instituições religiosas protegidas pelo Estado. No entanto, mesmo nessa altura, a categoria de cidadãos não era estendida a todos os seres humanos, como por exemplo nas sociedades esclavagistas, onde os escravos não tinham qualquer tipo de poder político ou económico. Deste modo, só os proprietários (geralmente homens) poderiam escolher os representantes.

Ao longo do tempo, devido ao activismo social e a pressões históricas (como a I Guerra Mundial), o direito de voto foi alargado aos trabalhadores e ao mundo feminino. Apesar de na teoria ser um sistema pensado para retirar poder político a uma pessoa ou a um grupo limitado, e reflectir o desejo de todos, na prática nos nosso dias quem tem mais poder económico acaba por influenciar todo o sistema. E é aqui que reside o calcanhar de Aquiles da democracia como direito universal; se uma sociedade não é educada, com conhecimentos validados pela ciẽncia e valores humanistas, ou melhor neo humanistas, como poderá fazer escolhas sensatas? Nestas condições a maioria do eleitorado não tem uma abordagem racional em relação aos assuntos a decidir e é facilmente manipulado para premiar com o poder alguns partidos ou pessoas que não estão interessadas no bem coletivo, mas de pequenos interesses de grupos. Estes são os dilemas que nos apresentam a ascensão ao poder do partido nazi na Alemanha e os partidos políticos populistas de hoje em dia, que sabem usar argumentos emocionais, demagógicos e com recurso à não verdade para atingir os seus objectivos de poder.

Ver video sobre a estrutura da Democracia em Atenas.

e ao longo da história

Na esfera económica o sistema capitalista evoluiu e, com os avanços técnicos da revolução industrial, foi possível criar mais bens e aumentar a riqueza das sociedades. No entanto, este desenvolvimento económico foi liderado pelos detentores de capital, guiados pela  directiva da maximização dos lucros num espaço curto de tempo e consequente acumulação de capital nas suas mãos, criando desigualdade na distribuição da riqueza. Aos poucos, os políticos e a política deixaram de ser influenciados pelos aristocratas, para serem pelos industriais e outros agentes de negócios. Com o passar do tempo todos os elementos da sociedade são “obrigados” a vender o seu trabalho para sobreviver, subordinados aos interesses dos que têm poder de empregar. São estes que acabam por tomar as decisões económicas; o que produzir, que quantidades, quem faz o trabalho, quando investir, etc. Tendem a influenciar as decisões políticas, para benefício da sua classe em geral ou mesmo de grupos muito pequenos, para perpetuar o seu poder económico, usando o Estado e a Lei para os seus interesses, à custa do resto da sociedade.

A separação entre poder político e económico deve ser uma realidade, os decisores públicos devem ser eleitos com base nos seus méritos pessoais, conhecimento e carácter.

Deixo aqui um video de Noam Chomsky sobre Democracia e Capitalismo, compatibilidades e incompatibilidades… 

Este centralismo do poder das decisões económicas nas empresas privadas, com as suas consequências negativas na economia, na política e na sociedade em geral, impulsionou desde sempre movimentos populares com outras soluções para a produção de bens e de riqueza e a sua distribuição. Um dos conceitos a explorar é o de Democracia Económica, onde a relação de poder na esfera económica é estruturalmente alterada. Quem trabalha passa também a ter voz nas decisões, ao ser também proprietário. Uma pessoa, um voto é máxima deste tipo de empresas, independentemente do capital investido. Assim o conceito de democracia, onde todos podem emitir opinião sobre os assuntos a decidir, é aplicado na esfera económica. O sentimento de pertença e comunidade de todos é aumentado, a corresponsabilização pelo sucesso económico está na mente de todos, preocupações ambientais e da comunidade são consideradas.

Muitos mitos, receios, pressupostos e ideias não questionadas, impedem-nos de visualizar, pensar e materializar este conceito a uma escala maior. Pensamento estruturado e projectos implementados em torno da ideia de Democracia na esfera económica, são desde já ferramentas disponíveis para essa mudança. Com o desgaste do sistema Capitalista, com as crises económicas cíclicas que trazem pobreza e desemprego, com o recurso ao dinheiro do Estado (proveniente de impostos e de dívida pública) para manter o status quo económico das grandes empresas e bancos, um sentimento descontentamento leva a que a maioria das pessoas possam estar abertas a mudanças.

Estratégias e politicas para as mudanças necessárias já estão pensadas e testadas em escalas pequenas, ver link

Vídeo “We the Owners”,  com alguns exemplos práticos da aplicação do conceito de Democracia Económica

Outro vídeo foca os benefícios, a nível pessoal, de trabalhar em espaços económicos democráticos

Um novo contrato social é necessário, alargando os direitos dos cidadãos para que tenham uma economia saudável e democrática. Se esta for a força mobilizadora da sociedade e das políticas, um conjunto de recursos e know-how podem ser mobilizados para estes objectivos. A separação entre poder político e económico,  passando o controlo das economias para as comunidades a nível local, de forma a que um planeamento racional pode garantir o desenvolvimento económico pensado para beneficiar a todos os habitantes de cada região.

Francisco Dinis

Maheshvara PachecoDemocracia Económica – Economia para todos….
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Está escrito nas estrelas que não podemos alterar o sistema socioeconómico em que vivemos?

Com a crise económica associada ao Covid-19, a fragilidade das cadeias de distribuição do sistema económico global tornaram-se mais evidentes. No link seguinte podemos verificar que a reversão do processo de globalização já está em curso há alguns anos, e a crise com o vírus só vem acelerá-lo.

https://voxeu.org/article/pandemic-adds-momentum-deglobalisation-trend

Qualquer sistema socioeconómico tem um conjunto de ideias, instituições e interesses associados, que há que ter em consideração.

Para aprofundar a abordagem ao tema da globalização, favor de ver o seguinte artigo na revista Forbes de 2015, com os argumentos a favor e contra:

https://www.forbes.com/sites/mikecollins/2015/05/06/the-pros-and-cons-of-globalization/#3341bba5ccce

ideia “benigna” da teoria por detrás do processo de globalização apresenta a seguinte narrativa: “o comércio livre beneficia países ricos e pobres, elevando o nível de vida, com os consumidores na Europa e nos EUA a terem acesso a bens mais baratos, produzidos a milhares de quilómetros em países menos desenvolvidos, criando emprego e reduzindo a pobreza. Com menos barreiras comerciais, maior seria a expansão das multinacionais e os ganhos económicos, enquanto que a cooperação política internacional iria florescer”.

As instituições que implementam estas ideias são o Fundo Monetário Internacional, o Banco Mundial e a Organização Mundial do Comércio. Aquando dos empréstimos a países, o FMI coloca como condição a redução de obstáculos ao comércio, como a redução de tarifas e um pacote de privatizações, por exemplo. Tudo em nome da boa governança.

https://www.imf.org/external/pubs/ft/exrp/govern/govindex.htm

No campo dos interesses, os detentores de capital (os beneficiários permanentes) defendem a globalização porque podem escolher os territórios onde podem realizar os seus “investimentos” com as melhores condições, passando por reduções de impostos ou subsídios por parte dos governos, salários mais baixos, regulamentação ambiental menos exigente ou inexistente. A acumulação de poder económico permite influenciar o sistema político, pautar a discussão no mundo académico, nos media, etc.

Uma análise profunda ao processo histórico de expansão económico, tentando encontrar razões para a existência de nações ricas e outras pobres, pode ser vista em:

(os com menos interesse académico podem ver a partir do minuto 4)

Existem caminhos diferentes a seguir? Com uma economia pensada e estruturada para todos e dentro dos limites do sistema ecológico da Terra? Claro que sim…

Para desenhar e planear um sistema económico diferente, não podemos recorrer a escalas muito grandes, com conceitos abstractos. Por outro lado criar um sistema no nosso “quintal” não terá também muito impacto no mundo real. O planeamento mais viável está na escala das BioRegiões.

Para explorar o conceito de Bioregião e a sua praticidade favor ver:

Em Prout existe o conceito de unidade socioeconómica, ou Samaj em Sânscrito, que é a materialização de um esforço colectivo em criar uma comunidade local forte e resiliente, construída em fortes sentimentos de solidariedade e de identidade própria. Semelhante às Bioregiões, o seu propósito é facilitar um desenvolvimento colaborativo, em direção a uma economia descentralizada, onde estas unidades são economicamente independentes e resilientes. Claro que continuam a ser guiadas por orientações e legislação nacional ou federal, mas devem ter os seus próprios planos de desenvolvimento económico.

Com o objectivo de alcançar a máxima utilização dos recursos locais, a edificação destas unidades permitirão que o comércio entre elas seja mais equilibrado e com benefícios mútuos para os intervenientes.

Boas leituras, excelente visão, inspiração e ação

Francisco Dinis

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Mas Afinal, As Casas Servem Para Quê?

As casas servem para quê?

A resposta óbvia seria para servir de moradia para as famílias. Mas no sistema capitalista não é bem assim…

Primeiro vamos relembrar um artigo da Constituição Portuguesa sobre a habitação.

Artigo 65.º

Habitação e urbanismo

1. Todos têm direito, para si e para a sua família, a uma habitação de dimensão adequada, em condições de higiene e conforto e que preserve a intimidade pessoal e a privacidade familiar.

2. Para assegurar o direito à habitação, incumbe ao Estado:

a) Programar e executar uma política de habitação inserida em planos de ordenamento geral do território e apoiada em planos de urbanização que garantam a existência de uma rede adequada de transportes e de equipamento social;

b) Promover, em colaboração com as regiões autónomas e com as autarquias locais, a construção de habitações económicas e sociais;

c) Estimular a construção privada, com subordinação ao interesse geral, e o acesso à habitação própria ou arrendada;

d) Incentivar e apoiar as iniciativas das comunidades locais e das populações, tendentes a resolver os respectivos problemas habitacionais e a fomentar a criação de cooperativas de habitação e a autoconstrução.

3. O Estado adotará uma política tendente a estabelecer um sistema de renda compatível com o rendimento familiar e de acesso à habitação própria.

4. O Estado, as regiões autónomas e as autarquias locais definem as regras de ocupação, uso e transformação dos solos urbanos, designadamente através de instrumentos de planeamento, no quadro das leis respeitantes ao ordenamento do território e ao urbanismo, e procedem às expropriações dos solos que se revelem necessárias à satisfação de fins de utilidade pública urbanística.

5. É garantida a participação dos interessados na elaboração dos instrumentos de planeamento urbanístico e de quaisquer outros instrumentos de planeamento físico do território.

Fim de citação.

A realidade em Portugal a partir de 2012 no sector da habitação nas áreas metropolitanas de Lisboa e Porto nada tem a haver com o que está escrito na Constituição.

Porquê desta situação? Ver video com o Prof João Rodrigues da Universidade de Coimbra, com a descrição do que aconteceu em Portugal com a privatização e desregulação financeira do sector bancário, dando entrada no país do crédito barato (aquando da decisão da criação da moeda única nos anos 90).

O debate da dívida portuguesa está muito centrado da dívida pública. Mas quando adicionamos o valor da dívida privada ficamos com a noção real da vulnerabilidade da economia portuguesa. No gráfico podemos acompanhar a evolução da dívida da economia desde dos anos 80, e verificar que determinadas decisões políticas tiveram um impacto enorme na economia, com consequência na realidade social nacional atual.

Gráfico 1. Dívida externa bruta de Portugal, total e pública, em percentagem do produto interno. Fonte: Banco de Portugal.

Para mais info ver um artigo do Prof. João César das Neves:

https://clsbe.lisboa.ucp.pt/pt-pt/divida-externa-bruta-e-liquida

“Em 1992, data em que assinamos o Tratado de Maastricht e entrámos no caminho para o euro, a nossa dívida externa bruta era 28% do nosso produto, pouco mais de um quarto do que produzimos, 8% em termos líquidos. Quando entrámos na moeda única em 1999 a dívida bruta já ia em 122% do produto e a líquida em 32%; no pico da crise elas eram 260% e 124% respectivamente; hoje, após anos de recuperação, a bruta está em 215%, bastante mais do dobro do que produzimos, e líquida iguala o nosso produto, 104%”.

Houve um boom da expansão de crédito nos anos 90, com as taxas de juro baixas, que foi aproveitado/canalizado para o sector da habitação, gerando o desenvolvimento do sector da construção. Contudo a economia portuguesa a partir do ano 2000 começa a “patinar”, entrando em estagnação, antes da crise financeira de 2008. Aquando desta, as famílias e os bancos portugueses estavam com níveis elevados de dívida, sendo o Estado chamado a socializar os prejuízos do sector bancário, para evitar o colapso financeiro.

A partir de 2012 voltamos à carga, agora com a construção vinculada a um serviço de exportação, o turismo, com regimes legais de captação de capital de estrangeiros, como os famosos Vistos Gold, onde em troca de investimento (com grande parte no sector imobiliário) é obtida um visto de residência, com acesso ao espaço europeu.

Consequências para quem arrenda em Lisboa e Porto? Preços exorbitantes da habitação obriga as pessoas a sair dos centros urbanos. Resultado uma disparidade entre os salários praticados em Portugal e o preço das moradias.

No PRIP estamos a observar as estatísticas da evolução do PIB nacional  e nota-se claramente que o chamado milagre económico português, depois da crise de 2010 a 2012,  assentou no desenvolvimento do sector do turismo e da construção.  Privilegiar um sector muito volátil, como o do lazer, é muito arriscado a longo prazo para qualquer economia. Perante uma pandemia, onde a circulação de pessoas é limitada, a actividade económica é muito afectada.

Prout, tal como a Constituição Portuguesa, advoga que a habitação é um direito e que a sociedade deve encontrar soluções para todos, através de um balanço entre rendimentos e preços. Para que haja uma existência digna para todos, os bens essenciais deveriam ser geridos de forma democrática, pelas comunidades.

Exemplo de soluções comunitárias para a habitação ver:

https://www.bloomberg.com/news/articles/2019-04-29/alternative-homeownership-land-trusts-and-co-ops

Só uma filosofia que entende o ser humano na sua multidimensão (como Prout), que não o reduza a uma mera entidade física do mundo material, pode assegurar que o caminho seguido até aqui pela financeirização capitalista não nos serve, pois cria mais problemas do que resolve a longo prazo. Por isso há que terminar este caminho já e substituí-lo por outro que nos traga mais felicidade…

Francisco Dinis

Maheshvara PachecoMas Afinal, As Casas Servem Para Quê?
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Não é com pós prilimpimpim que mudamos sistemas!

Como sabemos que temos uma crise sistémica? E como construímos o próximo sistema?

Este vídeo de Gar Alperovitz, historiador e economista político, tenta responder a estas questões:
https://www.youtube.com/watch?v=QT83nyB2Gaw&list=PLQ4lLGWj85FgD49LwvlxN3Sjy_MbLepg8

Em resposta à primeira pergunta, Gar afirma que sabemos que estamos perante um problema dessa natureza quando o sistema apresenta indicadores de decadência, com os modelos e as estratégias utilizadas no passado a já não inverterem o sentido de declínio.

Para o autor, o sistema capitalista está em decadência há muitos anos, mas ainda não entrou em colapso porque o dinheiro do governo está permanentemente a ser injetado na economia. A crise não é política, as reformas já não resultam, é sistémica, por isso há que mudar o sistema.
Quais os indicadores que revelam a estagnação e o declínio do sistema capitalista?
Roar Bjonnes, no seu livro Growing a New Economy, fala das diferentes crises inerentes ao sistema actual:  a crise da desigualdade da distribuição da riqueza, a crise financeira (nunca se criou tanto dinheiro e tanta dívida), a ambiental e a crise de recursos que ameaçam a extinção da civilização humana ou mesmo da espécie. Um conjunto de indicadores nestes campos revelam que as soluções propostas pelo sistema actual já não conseguem resolver…

Como acontecem os processos de transformação de sistemas?
Esse processos levam décadas. Quando os políticos deixam de ter capacidade de resolver os problemas, porque seguem teorias e modus operandi desajustados, surge uma polarização na sociedade (que pode gerar violência), e o sentimento colectivo de que algo está errado no sistema começa a ser sentido de forma premente.

Este é o primeiro passo para o início de um movimento de mudança social e económico. Aqui, começa a existir a sensação que não está além da capacidade humana pensar e desenhar um sistema diferente. Há que ganhar consciência da mudança, estudar, pensar, descrever a situação social vivida com uma narrativa diferente da anterior. Tudo isto gera um debate entre intelectuais e activistas.

Este debate aos poucos vai dando origem a um puzzle mental sobre como será o próximo sistema, por exemplo:
a) Alguns estarão focados no problema da concentração excessiva da riqueza, e começam a explorar a ideia de deixar de haver uma separação entre proprietários e trabalhadores, tornando-se os trabalhadores proprietários do seu local de trabalho, criando um sistema de democracia económica, onde a riqueza criada é gerida coletivamente. Outra solução seria taxar os super ricos, etc.

b) Outros seguirão o caminho de valores e de uma cultura ambiental, criando modelos e soluções mais harmoniosas com a natureza e os seus recursos.
c) As ideias de socialismo serão também exploradas, como a proposta de nacionalização de empresas estratégicas, pois é difícil controlar as corporações com legislação e as empresas capitalistas privilegiam a maximização dos lucros (a questão não é ter lucro, é sim maximizar) em detrimento de outros aspectos, com consequências ambientais e sociais devastadoras. Reduzir o sector privado torna-se importante.

d) Esta pesquisa passará também pelo aspecto cultural. Como nos relacionamos com os outros, como criamos comunidades fortes? Que estruturas económicas podem sustentar estas comunidades?
Como foi dito, todas as mudanças sistémicas requerem tempo: Criação de novas ideias e de nova cultura, realização de experiências a partir destas e o aparecimento de um movimento social exigindo a substituição do sistema vigente.
Para Gar Alperovitz, os heróis do movimento dos direitos cívicos nos EUA (muito visível nos anos 60) são os pensadores e ativistas dos anos 20 e 30, que criaram as condições para as mudanças sistémicas nos estados do sul do país, onde o sistema regulado por leis de segregação racial parecia indestrutível. Este exemplo ilustra o longo tempo necessário para ocorrerem mudanças sistémicas.
Como podemos evoluir, e transcender esta crise sistémica do capitalismo? Estes períodos de instabilidade e violência? Como podemos fazê-lo sem recorrer a uma revolução violenta contra as estruturas/instituições do sistema.
Reconstrução Evolucionária – Disseminação de projectos experimentais enquadrados no novo sistema, como as instituições da democracia económica, com um poder local forte, capazes de mudar a estrutura económica. Havendo depois a necessidade de estes projectos experimentais se tornarem na nova matriz sistémica, ganhando escala, com o foco a nível regional.
E finalmente não é suficiente as ideias novas, as mudanças de narrativa, os novos modelos teóricos e as suas experiências, pois nada disto acontecerá se nós, os indivíduos, não assumirmos que o problema de mudança de sistema também é nosso, algo pessoal: Eu assumo responsabilidade em ser parte da solução.
Inspiração para pensamento e ação transformadores…

Francisco Dinis

Maheshvara PachecoNão é com pós prilimpimpim que mudamos sistemas!
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Vamos parar o jogo da especulação financeira?

Envio o link do podcast com o economista Ricardo Paes Mamede, sobre as causas e as consequências da crise de 1929, nas esferas económicas, políticas e sociais, comparando com a situação actual.

https://www.esquerda.net/audio/grande-depressao-de-1929
Nada como observar e estudar factos do passado e tentar compreendê-los, para ajudar a tomar decisões racionais (racionalidade no contexto neo humanista) para os desafios actuais.

O que se aprendeu  do ponto vista económico com a crise de 1929?
A necessidade de controlar o sistema financeiro, porque se não o dinheiro servirá para especulação financeira. Assim, as pessoas compram coisas na esperança de as vender por um preço mais alto e ficar com os lucros, sem adicionar valor à economia real. Como é exemplo o sector imobiliário, onde o preço das casas sobem porque há “investidores”, tornando-se um bem não acessível à maioria das famílias (exemplo centro histórico das grandes cidades portuguesas).

Como no Imobiliário, o dinheiro é usado para todo tipo de especulação, ações na bolsa de valores, compra de dívida soberana, mercado de futuros de mercadorias, etc, A história acaba sempre da mesma forma, as bolhas rebentam e os chamados “activos desvalorizam”…Quem adquiriu em último lugar esse bem, perde dinheiro.
https://executivedigest.sapo.pt/das-tulipas-ao-subprime/
Está na altura de parar de jogar este jogo, pois os custos sociais são elevados…Contração económica, desemprego, aumento do nível de pobreza, etc.

Em Prout é importante o conceito de desenvolvimento socioeconómico de regiões em primeiro lugar, antes de qualquer integração económica e monetária (ao contrário do que se fez com o Euro). Produzir com os recursos locais, geridos democraticamente, para as necessidades  dos habitantes. O custo da especulação deixa de existir, os recursos (incluindo os financeiros) estão amarrados à economia real. Nesse sentido o PRIP está a desenvolver um estudo de Block Level Planning para a região da Cova da Beira (Belmonte, Covilhã e Fundão), para identificar potencialidades, estrangulamentos económicos e apresentar soluções para o desenvolvimento específico desta região, de forma a sensibilizar os decisores políticos, outros agentes locais e todos os habitantes.

Ps – Há cerca de cem anos atrás a humanidade enfrentou uma pandemia e uma depressão económica profunda, com impactos persistentes durante os anos 30, culminando na devastadora II Guerra Mundial. Pelos vistos estamos a seguir o mesmo guião, com a agravante da crise ambiental…Esperemos que haja mais clarividência para não trilhamos os mesmos caminhos dolorosos…

Francisco Dinis

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Usando o poder colectivo para quê?

Um vídeo do Dr Richard Wolf, sobre três formas de socialismo:

1. Socialismo Democrático – O socialismo democrático usa o Estado, um conjunto de leis e de regulamentos, procurando evitar os excessos do sistema capitalista, protegendo os  trabalhadores, o ambiente, as comunidades, etc. A maior parte dos países da europa ocidental tem ou teve partidos políticos defensores deste sistema nos seus governos.

2. Comunismo – Onde o Estado interfere diretamente no sistema económico. Caso da Antiga União Soviética e da actual República Popular da China.

3. Socialização no local de trabalho – Fica um video explanatório

Outra forma de socialismo é a que assistimos na última década, onde o Estado é usado para salvar financeiramente grandes entidades privadas (por exemplo Bancos). É o socialismo para os super ricos não sendo assim um socialismo ideológico mas de conveniência pura.

As grandes empresas privadas estão focadas na maximização de lucros a curto prazo, que beneficiarão um pequeno número de acionistas.
Ao contrário, é expectável que nas empresas onde os trabalhadores têm voz outras prioridades surjam: Emprego estável de longa duração, boas condições de trabalho, cuidado com o meio ambiente onde vivem e com a comunidade envolvente.
Prout advoga um sistema cooperativo para bens essenciais e/ou quando a empresa atinge uma determinada dimensão.

Deixo estatísticas sobre o movimento Cooperativo a nível mundial…

https://www.un.org/esa/socdev/documents/2014/coopsegm/grace.pdf

Na região da Beira Interior o PRIP está a realizar esforços para a criação de uma cooperativa no sector da agricultura biológica.

Francisco Dinis

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A ONU alerta para o colapso global: Como o podemos prevenir?

Num relatório recente, a ONU alerta-nos com um aviso severo: o sistema capitalista global está à beira do colapso. São as implicações de um novo artigo científico preparado por um grupo de biofísicos finlandeses. Solicitou-se à equipa da Unidade de Pesquisa BIOS da Finlândia que fornecesse pesquisas que contribuíssem para a elaboração do Relatório Global de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas (GSDR).

O documento da BIOS sugere que grande parte da volatilidade política e económica que vimos nos últimos anos tem como causa principal a crise ambiental global. “Vivemos numa era de turbulência e profundas mudanças nos fundamentos energéticos e materiais das economias. A era da energia barata está a chegar ao fim ”, escrevem os autores do artigo. “Enfrentamos uma forma de capitalismo que cristalizou o seu foco na maximização do lucro a curto prazo com pouco ou nenhum interesse aparente no bem social”.

Este relatório chega num momento importante para a humanidade, numa época em que os próprios fundamentos do nosso sistema económico são questionados. Mas qual é a razão pela qual o capitalismo nos levou à beira do colapso global? Mais importante, o que a ONU sugere como alternativa ao capitalismo?

As dádivas e os fracassos dos Verdes

Uma das principais dádivas do movimento ambientalista foi mostrar-nos algumas das falhas fundamentais do capitalismo. Por exemplo, que a verdadeira riqueza tem pouco a ver com lucro e mais com o bem-estar geral das pessoas. Os verdes também conseguiram apresentar uma nova visão macroeconómica em que a sustentabilidade é mais importante que o crescimento, onde o consumo para necessidades reais e não para o consumismo irracional orienta o planeamento económico e, mais importante, enfatizaram a necessidade de estabelecer limites ambientais e de recursos para a atividade económica .

O que os verdes ignoraram, no entanto, é o próprio fundamento do capitalismo e seu poder – o motivo de lucro sedutor e sinistro, o impulso de crescimento estruturalmente incorporado no capitalismo, que sempre superará todas as outras visões e necessidades, a menos que reestruturemos o cenário macroeconômico do próprio sistema. E como o movimento Verde ignorou essa questão, certamente foi ignorado pelos economistas tradicionais e pelos partidos políticos. É por essa mesma razão que estamos nessa situação terrível: à beira de um desastre global causado pelo homem.

Calcanhar de Aquiles do capitalismo: o motivo do lucro

“O aspecto mais importante do capitalismo, sua função e objectivo, é maximizar o lucro”, diz o economista Jaroslav Vanek, da Universidade de Cornell.1 Por esse motivo, as empresas capitalistas não gostam de regulamentações ambientais; eles não gostam de ser instruídos a adicionar custos ambientais à equação do lucro. Eles vão lutar contra essa possibilidade a cada passo. É por nenhuma outra razão que a lavagem ecológica – quando as empresas gastam mais dinheiro ou tempo anunciando que são ecológicas do que realmente sendo ecológicas – é tão comum. É também por isso que uma economia capitalista não regulamentada e uma economia democrática e sustentável são incompatíveis. E é por isso que o próprio fundamento do capitalismo – a motivação do lucro – também levará à sua queda. 

Hora de mudança de sistemas

Com esta iminente crise global no horizonte, temos duas opções: podemos, como fazemos hoje, conduzir mudanças incrementais através das escolhas dos consumidores e de legislação lenta. O resultado desse tipo de política lembra o Titanic; uma colisão com os icebergs e o afundamento do navio global.

A nossa única opção agora é fazer mudanças fundamentais; facilitar uma mudança democrática mas revolucionária na economia. O objetivo desta nova economia não seria maximizar o lucro, mas maximizar o bem-estar das pessoas e do meio ambiente através de uma melhor participação e planeamento.

Precisamos de reestruturar toda a economia, caso contrário a antiga visão económica continuará a ser o impulsinador da economia. Continuaremos a encarar a natureza como algo a usar livremente e um buraco onde podemos despejar o nosso lixo. Mas retórica à parte, qual é o principal problema da velha economia? É o tamanho e o objectivo do mercado capitalista, o objectivo de crescer e concentrar riqueza e comprometer as preocupações humanas e ambientais. Esta questão fundamental – de que é insuficiente simplesmente reformar o mercado capitalista – não foi abordada de maneira convincente nem pela esquerda nem pelos partidos verdes, nem pela esquerda nem pelo movimento ambiental em geral.

Além do capitalismo verde

É um eufemismo dizer que a nossa economia depende da natureza para sobreviver e crescer continuamente – a economia faz parte de um ecosistema composto por natureza e humanidade e só pode prosperar se a natureza e a humanidade prosperarem. Como seres humanos, prosperamos melhor quando vivemos em harmonia com a natureza e a cultura humana se manifesta em expressar sua reverência pela natureza. Mas se essas qualidades estão ausentes na sociedade, os humanos sofrem outra forma de pobreza – a pobreza espiritual. Com as políticas económicas e ambientais corretas, é possível criar uma economia que continua a existir e prosperar, tanto cultural quanto economicamente, co-evoluindo com a própria natureza, perpectuamente. Essa economia será descentralizada, reestruturada, democrática, culturalmente rica e circular. Aqui está, resumidamente, um conjunto de recomendações abrangentes que podem formar a base de uma economia verde mais democrática, equitativa e sustentável:

Sugestões de políticas para evitar o colapso global

Políticas

  • Trocar o objectivo de lucro pela democracia económica e a responsabilidade social e ambiental
  • Governos que incentivam o desenvolvimento de mercados industriais e agrícolas locais – isso também manterá a concorrência no mercado, mas de baixo para cima, que é uma chave importante para a democracia económica , para melhores salários, para um melhor ambiente local e global 
  • Criar um imposto global efetivo sobre o carbono para reduzir as emissões globais de CO2 – hoje os países individuais têm esses impostos, mas empresas fazem lobby para interrompê-los ou reduzi-los; isso não deve ser permitido. 
  • Repensar a economia dos combustíveis fósseis e invistir numa economia livre de combustíveis fósseis para o futuro
  • Avançar para tecnologias de emissão zero.
  • Aumentar a pesquisa e o desenvolvimento de produtos ecológicos
  • Adotar políticas económicas baseadas na ética e sustentabilidade, e não em lucro
  • Educar e promover o desenvolvimento da comunidade para conter o consumismo, promovendo melhores estilos de vida e fontes não materiais de felicidade. Estudos demonstraram que, uma vez que as pessoas têm um certo nível de vida, o aumento do consumo diminui a felicidade das pessoas.
  • Promulgar legislação de curto e longo prazo para tornar todas as práticas agrícolas orgânicas dentro de 10 a 20 anos
  • Reduzir subsídios à agricultura para que os preços reflitam o custo real e, assim, criar uma agricultura localizada com base nas necessidades reais do consumidor
  • Reduzir a produção de carne para sustentabilidade e saúde – a produção de carne, a menos que seja “free range”, é o método agrícola mais ambientalmente hostil, e seu consumo excessivo provou ser a principal causa de doenças cardíacas, cancro e diabetes
  • Educar a nível nacional sobre a importância de uma dieta mais baseada em vegetais, de acordo com a mais recente ciência em nutrição e saúde
  • Aumentar a produção, processamento de alimentos e distribuição de frutas, vegetais, ervas, óleos vegetais e grãos para obter a máxima soberania local, regional e nacional

A principal razão pela qual houve pouco progresso na implementação do tipo de políticas ambientais descritas acima não é porque não temos soluções, é simplesmente porque não há consenso global sobre qual é o problema – os resultados do capitalismo, direcionados  ao lucro são fundamentalmente incompatíveis com uma economia sustentável. Portanto, a fim de evitar danos irreparáveis ​​ao ecossistema, causados ​​pelo aquecimento global, e evitar instabilidade política e pobreza generalizada devido ao esgotamento de recursos, precisamos não apenas de mais reformas, mas também de mudanças nos sistemas económicos. Simplesmente não há outra alternativa.  

1 Jaroslav Vanek, entrevista publicada pela primeira vez no Prout Journal , depois republicada na New Renaissance Magazine , consulte: http://www.ru.org/51cooper.html   

Artigo cortesia de Prout Global.

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Neohumanismo

O Neohumanismo é uma visão integrante do mundo que defende a existência harmoniosa entre os seres humanos, a vida animal e vegetal, e todo o meio ambiente. Pode definir-se como uma ecologia espiritual baseada no respeito e na apreciação do valor existencial de todos os seres do Universo. Por norma, as filosofias baseadas na supremacia do Ser Humano tem uma visão utilitária dos restantes seres vivos e do meio ambiente. Muitas vezes, isto leva ao abuso e ao desequilíbrio do mundo natural, pois tendemos a reservar-nos o direito de por e dispor como bem entendemos de tudo o que consideramos “útil” para os nossos interesses egoístas, enquanto destruímos ou negligenciamos o que se torna “inútil” para os nossos objetivos. O Neohumanismo defende que tudo neste Universo tem um valor intrínseco pelo simples facto de existir.

P. R. Sarkar definiu o Neohumanismo como “a libertação do intelecto”. Ele argumenta que a nossa mente está normalmente limitada por sentimentos mesquinhos e egoístas. Desde pequenos que nos ensinam a criar barreiras que nos separam das pessoas que consideramos como diferentes de nós e do grupo ao qual pertencemos. Isto leva-nos a ter apego a uma determinada zona geográfica, limitada a um pequeno grupo racial, social, político ou ideológico, cultural, económico ou religioso. Assim, todos aqueles que não pertencem ao nosso grupo tornam-se “estranhos”, inimigos”; são “os outros”. Estes sentimentos podem levar à intolerância, ao fanatismo, aos dogmas, à violência, à exploração económica e social e à destruição mútua entre dois grupos. A exploração destrutiva e descontrolada de outros seres vivos e do meio ambiente também é um resultado do sentimento de superioridade que os seres humanos sentem em relação às outras espécies de animais e restantes seres vivos e recursos naturais.

Educação Neohumanista

Segundo P. R. Sarkar, uma educação apropriada é o melhor modo de desenvolver e expandir a mente Humana. Essa educação deve contemplar não só o conhecimento referente ao mundo físico, mas também deve ter em conta o desenvolvimento emocional e espiritual do aluno e ensiná-lo a manter uma relação harmoniosa com todos os seres vivos e objetos do planeta. A educação não deve apenas dotar a mente humana de conhecimento sobre as realidades do mundo físico (matemática, tecnologia, biologia, etc), ela deve estimular o desenvolvimento da personalidade e encorajar cada indivíduo a descobrir a sua unicidade e a desenvolvê-la ao máximo para o seu bem-estar e para poder contribuir para o bem-estar dos demais habitantes deste planeta. Em sânscrito diz-se: “Savidyayavimuktaye”: a educação é aquilo que nos liberta.

Citando P. R. Sarkar:

“O verdadeiro significado da educação compreende o desenvolvimento trilateral dos níveis físico, mental e espiritual. Este desenvolvimento deve melhorar a integração da personalidade humana (…) Educados são aqueles que aprenderam muito, que recordam muito e que utilizam esse conhecimento na sua vida prática.”

Com a ajuda deste tipo de educação, e fortalecendo a nossa capacidade de discernimento, torna-se possível crescermos além destes complexos que bloqueiam a nossa mente. Expandir a mente significa ir além de todas estas distinções artificiais que nos separam dos outros e nos fazem lutar em competição feroz. O Neohumanismo é um ideal universalista no sentido em que defende que o ser humano é apenas uma raça. A raça humana. Somos apenas uma sociedade, a sociedade humana. Um planeta, um povo. A verdadeira educação permite-nos libertar a mente e converter-nos em seres humanos responsáveis, benevolentes, universais e respeitadores do outro e de toda a vida neste planeta. Ao expandir o nosso círculo de compaixão de modo a abranger todo o planeta e tudo o que nele está contido, podemos criar uma consciência global capaz de criar uma sociedade sã, ética e progressista. Quando formos todos um só povo, como poderemos lutar? Como poderá um soldado ir à guerra matar um irmão da sua família universal? Como poderá um rico explorar um pobre se ambos se sentirem e conceberem como iguais em valor e direito?

Pedro Alves

Maheshvara PachecoNeohumanismo
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